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o que fizemos com o ócio?

Posted in Uncategorized by tijoloportijolo on 16/03/2012

 

Olhando o pastor Tim tirando uma soneca a tarde, fugindo do sol escaldante, penso como é sábia a natureza dos bichos, o que me faz refletir sobre o ócio humano, ou melhor a falta dele nos dias atuais. A discussão sobre a falta e uso do tempo livre não é nova, mas cada vez mais ela está presente no nosso dia-a-dia. Basta observar qualquer conversa de bar ou entrar em comunidades como o Face Book e ver quantas pessoas reclamam de trabalhar demais e da falta que sentem de ter mais tempo para o lazer e convívio com a família e os amigos.

Li um texto* interessante, recomendado pela professora de História do Urbanismo,  que fala sobre a sociedade em vivemos: a sociedade de trabalho – na qual o trabalho constitui a base da vida humana e, portanto, aqueles que trabalham fazem parte dessa sociedade e os que não trabalham são automaticamente colocados à margem dela.

A autora Maria Stella Martins Bresciani destaca que o objetivo dessa sociedade é produzir sistematicamente cada vez mais, buscando a exploração máxima da mão-de-obra (que no início do processo de industrialização trabalhava cerca de 14 horas/dia) e o mínimo de tempo ocioso das máquinas. Ao contrário do artesão que trabalhava o suficiente para subsistir, o tempo do trabalhador é utilizado de forma contínua e totalmente controlado pelo patrão. Essa exploração do trabalho revela uma contradição: o homem é arrancado do tempo regulado pela natureza, da sua tendência natural à insolência e à liberdade e obriga a si mesmo a trabalhar muito mais do que descansar ou divertir-se. A busca inicial por mais riqueza e conforto parece ter trazido, para a grande maioria, mais pobreza e desconforto.

O modelo americano, que a grande maioria das empresas brasileiras parecem seguir, de trabalhar mais para consumir mais não parece trazer tanta felicidade assim. Eu já vi muita gente abandonar esse sistema, eu mesma fui uma delas. O problema é como sobreviver de forma saudável à margem dele.

Outra reflexão interessante sobre a relação entre trabalho e ócio é a tese bastante conhecida do sociólogo Domenico de Mazi “ O ócio criativo”. Nessa tese, que deu origem ao livro de mesmo nome, o autor destaca dois problemas opostos da sociedade pós-industrial: o excesso de trabalho para uns e a falta de emprego para outros. Insatisfeito com o modelo social centrado na idolatria do trabalho, ele propõe uma maior interação entre o trabalho, o tempo livre e o estudo, onde os indivíduos são educados a privilegiar a satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência. Parece-me bem mais interessante.

De qualquer forma, não precisamos de muitas teses para concluir que temos maltratado demais o ócio, pois a maioria das vezes priorizamos o trabalho e deixamos o descanso de lado. Muitas vezes penso que sábios são os funcionários da fazenda ou peões de obra que fazem a ciesta no chão, um descanso no meio do dia de invejar qualquer executivo engravatado. Pense nisso e tente tratar com mais carinho o seu ócio, mesmo que isso te custe ganhar menos dinheiro. Posso te dizer que vale muito a pena.

(*) BRESCIANI, Maria Stella Martins. Lógica e dissonância. Sociedade de trabalho: lei, ciência, disciplina e resistência operária. In Revista Brasileira de História. São Paulo, v.6, n.11, p.7-44, 1985 – fev 1986.

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